quarta-feira, 27 de maio de 2026
texto de autor desconhecido
CARTA PARA BEATRIZ
Brasília, 27 de setembro de 2018
Bia querida,
Até hoje me toca fundo a notícia do meu avoamento. Momento em que recebi a notícia de que seria avô.
Solitário, acompanhei o seu nascimento ao vivo na Internet. Só Deus sabe o quanto solucei. Emoções que você não viu nem presenciou. Você já pulsava dentro de mim.
Eu te amo muito. Talvez pelo meu jeito recluso de ser, a gente conviva pouco. Estávamos tão afastados que nem assunto eu tinha com você. Você e eu queríamos nos encontrar. Ficar mais próximos. Dizer o quanto nós nos gostamos.
Não vi quando você andou de bicicleta sem rodinhas. Deixei de vê-la escrevendo seu nome com lápis de cor. Desconheço se prefere sorvete de chocolate ou morangos com suspiro.
Sequer liguei para saber se estava com tosse ou se havia melhorado da gripe.
O tempo passou e a minha falta de iniciativa nos distanciou. Me perdoe.
Na minha falta de jeito, apenas anotava desejo na minha agenda: passar o fim de semana com a Bia. E passava a anotação para outro dia e outro dia e outra semana.
Um dia seu pai me ligou pedindo que eu ficasse com você num domingo. Ele precisava se ausentar justo no Dia dos Pais.
Eu fiquei feliz. Muito feliz.
Confesso que eu não sabia como ocupar o nosso dia.
Você sugeriu assar biscoitos de Natal, nossa única atividade juntos. Um único dia por ano.
Foi a deixa. As luzes coloridas se acenderam.
Fizemos o almoço juntos. Preparei o cardápio e você, com seu novo avental, descascou cenouras, salgou a picanha suína, fatiou batatas, espalhou-as na forma de alumínio e salpicou alecrim. Cheiro de amor. Mostrou-se uma ajudante nota dez.
Combinei de levá-la de volta para sua mãe ao final do dia, lá pelas cinco horas. Nossa tarde de parque e exposição foi deliciosa, tão recheada de abraços e alegria que atrasamos a volta até o escurecer.
Foi o meu melhor Dia dos Pais em muitos anos.
O tempo voa. Já se passaram mais alguns dias. E outros mais.
Seu aniversário está chegando. Faltam só cinco dias.
Que baita alegria!
Você já está com dez anos. Uma pré-moça.
Qual é o presente que se dá para uma pré-moça?
Imaginei um unicórnio rosa. Mas bichos de estimação são para sempre. E, aos doze, treze anos você não iria mais querer passear com o unicórnio rosa.
Talvez eu possa ensiná-la a assobiar. Achei engraçado você tentando me imitar.
Pensei num celular. Mas você já tem um. Não é para sempre e todo mundo tem. Você não é igual a todo mundo.
Por isso, escrevi esta carta. Uma carta de aniversário.
Aposto que jamais recebeu uma carta. Crianças não recebem cartas. Esta é a sua primeira carta. Poderá dizer a todos os colegas da escola que recebeu uma carta. Mostre a ales. Nenhum deles recebeu uma. Você é a única. Você é especial.
Que o seu dia, o seu ano, a sua vida seja muito feliz.
Parabéns.
Eu vou à sua escola para dizer o quanto eu te amo.
Beijos do Vovô
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